ESCRITORES

ESCRITORES

O que é que com este mundo há? - Antonio Nobrega

Música "Meu Tempo" de Antonio Nóbrega e Wilson Freire. 

Quebrando coco
de praia, de Catolé,
perguntei-me o que é
que com este mundo há?
Como num filme
preto e branco e a cores,
cheio de risos e dores,
eu agora vou narrar.
Começo em Minas
onde a VALE se derrama.
Sobre o vale um mar lama,
sobre um povo e um lugar.
Matando a fauna,
bicho homem e toda flora.
Hoje a natureza chora
do Rio Doce até o mar.
Eu vi as bolsas
despencarem nos pregões
euro, dólar, meus tostões,
onde é que vão parar?
Vão para os bolsos
do mercado financeiro
que governa o mundo inteiro
sem ninguém para vetar.
Lá pela Síria
eu vi bombas a granel.
Feito chuva, vêm do céu
destruir tudo o que há.
Bomba francesa,
bomba norte americana,
bomba russa e muçulmana,
e a bubônica bomba Agá
E as multidões
dos exilados das guerras
procuram por uma terra
onde em paz possam ficar.
Cruzam desertos
com fome, sede e com medo.
Muitos têm como degredo
naufragar, morrer no mar.
Fecham fronteiras,
erguem cercas, paredões,
campos de concentrações,
currais de gente sem lar.
Intolerância
política e religiosa,
combinação perigosa
que já vimos no que dá.
E a Palestina
peleja com Israel
por um chão sob este céu,
por um mar pra navegar.
Ter o direito
de ser livre e ser nação.
Essa paz e a comunhão
quero um dia aqui cantar.
E o terrorismo,
no tempo do meu avô,
era um filme de terror
no cineminha de lá.
Hoje é um fantasma
que assombra, é um sistema,
não é coisa de cinema,
mas é, sim, de assustar.
Esse meu xote
pega tudo isso e junta,
e aí faço a pergunta:
para onde o mundo irá?
É uma questão
que roda a terra e não descansa,
ainda tenho a esperança,
de que isso passará.
Minha canção
é do meu tempo, é um diário
que acompanha o calendário
do que vejo pra informar.
Numa outra vez
o assunto se renova
e a notícia Boa Nova
eu espero aqui contar.
Assista a Antonio Nobrega cantando esta música no *Show em Recife (PE) no carnaval 2017



Saiba mais, em:

Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

  

Mulher negra, mãe solteira, semianalfabeta e favelada, semelhante à tantas outras que engordam as estatísticas da desigualdade social no Brasil. Uma escritora única, cujo olhar aguçado conduz uma narrativa forte e dolorosa que chama a atenção para a condição humana. Carolina Maria de Jesus é autora, entre outros, de Quarto de Despejo, fenômeno editorial do início da década de 1960. O livro, traduzido em 13 idiomas, publicado em mais de 40 países - cuja primeira edição, de 30 mil exemplares, esgotou em apenas três dias - vendeu mais de 1 milhão de cópias.
Carolina nasceu em 1914, na cidade mineira de Sacramento. Lá a escritora teve acesso a toda a edução formal recebida em sua vida, que se resumiu a dois anos de escola primária. De Minas Gerais, migrou para São Paulo, onde trabalhou como doméstica e, posteriormente, como catadora de papel. Estabeleceu-se na favela Canindé, às margens do rio Tietê, uma das primeiras comunidades a se aproximar do centro da capital paulista. E foi ali descoberta pelo jornalista Audálio Dantas.
Autodidata, amante dos livros e da escrita, Carolina registrava o seu cotidiano em cadernos que recolhia do lixo. Nos mais de 30 diários que escreveu, a autora agregava às anotações pessoais observações sobre a favela, o descaso, os contrastes entre o centro e a periferia, a política, etc. Seu relato - que tem início em 15 de julho de 1955 e se encerra em 1 de janeiro de 1960 - deu corpo a Quarto de Despejo, sua obra mais conhecida. O texto é marcado por uma ironia aberta beirando o sarcasmo, pela consciência das condições política e social que determinam as estruturas de miserabilidade, por uma ambiguidade sofrida em relação à condição do negro e por um diálogo acalorado com o discurso "culto".

Clarice Lispector com Carolina Maria de Jesus no
lançamento do livro em 1960.
[foto do acervo de Paulo Gurgel Valente]
O livro, um documento inestimável da situação de marginalização em um grande centro urbano, dialoga com obras como A Geografia da Fome, de Josué de Castro, ao mesmo tempo em que mantém um valor literário incontestável por sua intensidade narrativa, por seus grandes momentos metafóricos e pelo lirismo cru. Os diários, organizados por Audálio Dantas, sofreram algumas alterações e cortes, até que se chegasse ao produto final. Manteve-se, no entanto, a dicção da autora, sua fluidez, seu léxico, seu "português gostoso" "na língua errada do povo, língua certa do povo", como falava o poeta Manuel Bandeira.
[Por Micheliny Verunschk, na revista Discutindo Literatura, Edição-14]




VEJA TAMBÉM ESTE VÍDEO SOBRE O LIVRO: [QUARTO DE DESPEJO]

Testemunho do projétil que matou Maiakóviski - Fábio Bahia

Da poesia de Fábio Bahia depreendem-se as marcas bem definidas de um lirismo múltiplo. Neste sentido, sua poética apresenta uma conjugação complexa das vozes líricas que se harmonizam ou mesmo se conflitam numa mesma peça de poema. Deste movimento amalgamado é que se concebe uma poesia livre de monotonia e afastada de uma concepção monocrática das imagens poéticas.
O eu poético de Fábio Bahia parece promover a confluência de um lirismo vário, de vozes que se bifurcam, de nuances poéticas que se harmonizam para a construção de um quadro estético que traduz ao leitor a essência da vida e suas vicissitudes. O excelente poema "Memória e contraditória" que é uma perfeição em forma, imagem, e sentido lírico, é um exemplo do caráter multifário de sua poesia, onde o poeta não encontra dificuldade em conciliar imagens antagônicas como "Raízes cravadas no passado" e "...folha solta ao vento".
Por Epitácio Carvalho na orelha do livro.

Testemunho do projétil que matou Maiakóviski

A concha-carne padece por dentro,
A alma previamente eutanasiada,
A futura mão cadavérica me posiciona
Um tremor denuncia a indecisão
Permaneço impávido dentro da arma,
O estampido é acolhido pelas paredes
Meu caráter é de chumbo, sem emoções,
Mas não deixo de notar num milésimo de segundo,
Quão prosaico era o coração do brilhante poeta!

Poemas Eróticos de Carlos Drummond de Andrade

Guardados durante anos, os poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade estão reunidos nesta excepcional coletânea. O Amor Natural é uma obra inquietante, pois revela uma face nova, mais despojada, porém extremamente fascinante, do poeta. São textos repletos de vida e sensualidade, onde o autor se introjeta ao mesmo tempo em que se expõe, desbravando o corpo enquanto busca, na fluidez e sensualidade da linguagem, a própria nudez da alma.
Quase todos os poemas encontrados aqui são inéditos, à exceção de uns poucos publicados em revistas eróticas durante a década de setenta. Apesar de muitos deles terem servido de base para uma tese sobre o erotismo drummondiano, o autor optou por guardá-los em segredo, confiando a seus herdeiros a tarefa de publicá-los após sua morte.
Embora o senso de humor e a leveza — traços marcantes do estilo do autor — estejam presentes em toda a obra, o elemento mais forte é, sem dúvida, a paixão, a sensualidade à flor da palavra. Como define Affonso Romano de Sant’Anna, as palavras às vezes copulam semanticamente, e o que encontramos nestas páginas é o êxtase poético de um autor que, ao mergulhar fundo em suas próprias sensações, desnuda também o leitor, que se vê frente a frente com suas próprias contradições ao pensar nos limites entre o erótico e o pornográfico, o sexo e o amor.
[trecho da orelha do livro "O amor natural". Rio de Janeiro: Record, 1992]

CONTINUE A LEITURA SOBRE A POÉTICA ERÓTICA DE DRUMMOND,  EM:


VÍDEOS: [O AMOR NATURAL-1], [O AMOR NATURAL-2]